A garota sentou do meu lado. Mexeu no celular, procurando uma canção. Wave, Tom Jobim. Colocou os fones, remexeu na mochila, puxou um livro. Crime e Castigo, Dostoiévski. Abriu numa página mais pro fim e viajou. Podia ver no olhar dela que viajava na história. Era um bom livro, eu sabia. Wave ainda tocava, podia ouvir. Ela era uma boa garota, de bom gosto, chamara minha atenção. Pensei em falar com ela, mas seria um incomodo tirá-la do livro. Ou será que não? Vez por outra, me olhava e até sorria. Eu devia falar com ela. Queria isso, ela também. Mas como puxar um assunto? Com um oi, eu sei, mas e depois? Falar do livro? Da canção? Não queria parecer interessado logo de cara. E então o pior aconteceu. Ela levantou, deu sinal, o ônibus parou, ela desceu. E hoje faz um mês. 30 dias pensando na garota que eu nunca mais encontrei. E que por falta de coragem, eu não amei.